
Foto: Patrícia Alves, agricultora familiar do Assentamento Joaquim Nicolau / Dayse Nunes: 2026.
Um solo vivo é o encontro de milhares de microrganismos que, em interação com a matéria orgânica, as raízes e os diversos elementos do ambiente, mantêm o ciclo da vida e a da fertilidade na terra. É nesse mover que o tecido entre a espera, a regeneração e o cuidado com o chão do território que se constitui a prática de cultivo e captura de bioinsumos.
Iracema Nunes Ferreira, de 51 anos, vive no Quilombo de Águas Claras, em Virgolândia. Ali, ela e outras três pessoas de sua família enfrentaram, por diversas vezes, o desafio de cultivar a terra e lidar com a perda da produção provocada pelas condições do solo.
Para enfrentar essa situação, Iracema já havia ouvido falar sobre a produção de bioinsumos naturais, mas nunca tinha colocado esse conhecimento em prática. Segundo ela, inicialmente, trabalhar com bioinsumos parecia uma atividade complexa e difícil de realizar. Essa percepção começou a mudar a partir dos conhecimentos compartilhados e das experiências práticas desenvolvidas junto à equipe técnica do Centro Agroecológico Tamanduá (CAT), no âmbito do projeto “Bioinsumos e Estruturação Produtiva da Agricultura Familiar no Médio Rio Doce”.
“Eu pude ver de perto que dá para usar coisas simples, como açúcar mascavo com água ou apenas arroz cozido, para produzir bioinsumos”, afirma.
O processo possibilitou que a agricultora familiar compreendesse melhor as técnicas de produção e percebesse que os bioinsumos podem ser produzidos e utilizados de maneira acessível, considerando os recursos disponíveis em seu próprio território.

A família de Iracema, assim como outras 30 famílias de agricultores familiares, integra o grupo de beneficiários do projeto, que prevê a implantação de 30 unidades familiares de produção de bioinsumos. A iniciativa é desenvolvida pelo CAT, com apoio do Programa Da Terra à Mesa, e atua nos municípios de Açucena, Frei Inocêncio, Governador Valadares e Virgolândia, e atuará também nos municípios de Coroaci, Periquito e Tumiritinga no Médio Rio Doce.
De acordo com Lucas Christ, coordenador do projeto, uma das principais transformações promovidas pelo uso dos bioinsumos acontece também na forma de compreender o solo. Para ele, essa prática contribui para a democratização do conhecimento ao possibilitar que agricultores e agricultoras reconheçam o solo como um organismo vivo, formado por estruturas e relações complexas. Essa mudança de perspectiva representa uma quebra de paradigma e fortalece o processo de transição agroecológica nos territórios, a partir do protagonismo de agricultoras e agricultores.
O uso de bioinsumos naturais articula saberes tradicionais e conhecimentos científicos construídos no campo da Agroecologia. No projeto, essa perspectiva dialoga com o pensamento da agrônoma Ana Primavesi, uma das principais referências da Agroecologia no Brasil, que defendia o cuidado com o solo como um sistema vivo e destacava a importância da matéria orgânica, da biodiversidade e dos microrganismos para a manutenção de sua fertilidade.

A partir dos princípios da pedagogia popular, o projeto articula visitas de campo em cada propriedade e oficinas de produção de bioinsumos como espaços de escuta, troca e construção coletiva do conhecimento. A metodologia permite conhecer e sistematizar as características de cada quintal produtivo, valorizar os saberes das famílias e compartilhar práticas de produção e uso de bioinsumos, relacionando o conhecimento técnico às experiências e às necessidades de cada comunidade.

“A fertilidade do solo e o uso rotineiro de bioinsumos promovem a recuperação da microbiota, favorecem a ciclagem de nutrientes e estimulam a população de microrganismos benéficos, como bactérias, leveduras e fungos. Esses microrganismos contribuem para aumentar a decomposição da matéria orgânica e melhorar a dinâmica do solo”, explica Lucas.
O coordenador destaca ainda que a introdução de determinados microrganismos pode contribuir para processos como a fixação de nitrogênio no solo, ajudando a reduzir a dependência de adubos químicos, como a ureia. O nitrogênio é um nutriente fundamental para o desenvolvimento das plantas e participa da formação de proteínas, enzimas e clorofila.
Quando há baixa disponibilidade de nitrogênio, as plantas têm dificuldade para se desenvolver, o que pode comprometer a produção e retardar a recuperação de solos degradados. Nesse processo, a atividade dos microrganismos é fundamental para a ciclagem e a disponibilização de nutrientes. É justamente nesse ambiente vivo e complexo que atuam os bioinsumos, favorecendo processos que contribuem para a fertilidade e para a recuperação do solo.
A ação desses microrganismos também pode favorecer a produção de ácidos orgânicos, que ajudam a tornar alguns nutrientes, como o fósforo, mais disponíveis para as plantas. Esse processo contribui para melhorar a fertilidade e a dinâmica do solo, sendo especialmente importante na recuperação de áreas degradadas. A atividade dos microrganismos e a presença de matéria orgânica também podem favorecer a estrutura do solo e sua capacidade de reter água.
Conhecimento que circula pelo território

A agricultora Maria Barbosa, de 57 anos, integra o grupo de agricultores atendidos pelo projeto em Virgolândia. Moradora do Brejaúba dos Baianos, ela aprendeu a produzir bioinsumos naturais e a realizar a captura de microrganismos vivos na mata. De acordo com Maria, o território possui grande quantidade de matéria orgânica, como folhas, e o solo é bastante adubado. Mesmo assim, alguns cultivos eram frequentemente atacados por brocas.
A partir da formação oferecida pelo projeto, ela passou a compreender melhor como os bioinsumos podem contribuir para o fortalecimento do solo e para o manejo dos cultivos. Maria já começou a produzir os bioinsumos em seu quintal e acredita que a experiência pode fortalecer também a produção de outras famílias agricultoras.
“Eu já comecei a produzir bioinsumos naturais e acredito que isso vai me ajudar muito, não só a mim, mas também à comunidade. Minha vizinha já falou que, se der certo no meu quintal, ela quer utilizar no quintal produtivo dela também. Quero passar essa ideia para frente”, conta.
A experiência de Maria revela uma dimensão importante do processo de formação: o conhecimento não fica restrito à propriedade de quem participa diretamente do projeto. Ele pode ser compartilhado, experimentado e multiplicado entre as famílias e comunidades.
Um solo vivo diante das mudanças do clima

A agricultora familiar Maria da Conceição, de 60 anos, também percebe os efeitos das mudanças no clima sobre sua produção. Dedicada ao cultivo de hortas, ela conta que as temperaturas estão cada vez mais altas e que esse cenário tem impactado tanto o solo quanto a produção, provocando a perda de alguns alimentos.
“A gente observa que a terra tá muito fraca, muito pobre de microrganismos. É muito difícil produzir, principalmente sem usar nenhum veneno”, reflete.
Maria percebe, porém, que, depois que começou a utilizar os bioinsumos, os cultivos têm apresentado mudanças positivas. Ela acredita que os resultados serão ainda maiores a longo prazo, a medida que continuar utilizando os bioinsumos no solo.
A agricultora familiar Francilani Gonçalves, de 19 anos, que vive no Assentamento Joaquim Nicolau, em Governador Valadares, também tem utilizado bioinsumos em seu quintal produtivo. Ela conta que o solo de sua propriedade apresentava dificuldades e que, antes de conhecer os bioinsumos, ela e a família utilizavam folhagens e esterco na tentativa de fortalecê-lo.
A partir da assessoria técnica do projeto, Francilani aprendeu a produzir e utilizar bioinsumos a partir de recursos disponíveis no próprio território, como urina de vaca, soro e microrganismos vivos capturados por meio de técnicas que utilizam telhas de barro e arroz cozido.
“Fiquei surpresa porque é um conhecimento muito importante e que podemos produzir gastando pouco”, afirma.
Nessa etapa de estruturação das ações, Lucas observa que um dos desafios é diminuir o tempo necessário para a produção dos bioinsumos, que atualmente pode levar cerca de sete dias. Para ele, o conhecimento sobre essa prática, normalmente associado apenas às hortas e ao cultivo de alimentos, precisa ser ampliado para outros usos. De acordo com o coordenador do projeto, à medida que as comunidades começarem a utilizar os bioinsumos também no cultivo de plantas ornamentais e em áreas de vegetação nativa. Ao longo prazo, a prática poderá contribuir para o equilíbrio da população de bons microrganismos no solo que vão contribuir para o processo de transição agroecológica, além de oferecer uma fonte de renda para as famílias das comunidades atendidas pelo projeto.
Por Sarah Gonçaves, comunicadora do CAT GV
Projeto Bioinsumos e Estruturação Produtiva da Agricultura Familiar no Médio Rio Doce
Desde março de 2026, o projeto é desenvolvido pelo Centro Agroecológico Tamanduá (CAT), com apoio do Programa Da Terra à Mesa, e atende até o momento cerca de 90 famílias de agricultores familiares de comunidades dos municípios de Governador Valadares, Virgolândia, Açucena e Frei Inocêncio.







