Demolição por detonação de reservatório desativado surpreende famílias ribeirinhas em Galiléia-MG, amplia temores sobre danos estruturais da reparação e reacende debate sobre segurança e transparência nas intervenções da ETA

No último dia 9 de fevereiro de 2026, um reservatório elevado de água da Estação de Tratamento de Água (ETA) de Galiléia-MG, já desativado e localizado dentro da área da estação, foi demolido por meio de explosão, segundo relatos dos moradores. A detonação teria ocorrido sem qualquer comunicação prévia adequada às famílias ribeirinhas que vivem no entorno. Este episódio reacendeu a preocupação de famílias que residem nas proximidades da estrutura. “Eu achei que tivesse acontecido um acidente, por conta do barulho que deu, foi muito alto, Não vieram avisar ninguém daqui, aqui tem crianças que brincam na rua e tinha muitas máquinas passando.” desabafou Leidiana Maria, moradora de Galiléia-MG.
De acordo com os relatos, desde o dia 5 de fevereiro houve intensa movimentação de máquinas no local com o objetivo de derrubar a estrutura de concreto. Ainda no dia 9, antes da explosão, teria sido realizada uma tentativa de tombamento da caixa d’água com o uso de cabo de aço, que se rompeu durante a operação. Posteriormente, a estrutura foi ao solo por meio de detonação.
Moradores afirmam que foram surpreendidos pelo forte estrondo e pelas vibrações nas residências, sem tempo hábil para qualquer preparação ou decisão sobre permanecer ou não em suas casas durante o procedimento. Segundo os relatos, não houve aviso formal, plano de contingência ou orientação preventiva por parte dos responsáveis. Além do impacto sonoro, famílias relatam que trincas já existentes nas casas teriam se ampliado após a explosão e que algumas esquadrias cederam. O episódio é um agravo aos danos psicológicos, diante do histórico de convivência com os danos estruturais e a insegurança que já marca a relação da comunidade Ribeirinha com a obra.
Representações do CAT/ATI reforçaram pedido de retirada da estrutura

Antes mesmo da explosão, em julho de 2024, o CAT/ATI já havia encaminhado representação ao Ministério Público de Minas Gerais solicitando providências em relação ao reservatório elevado desativado, cuja estrutura apresentava sinais de deterioração. O risco de desabamento foi constatado pela AECOM do Brasil Ltda., perita judicial do processo referente ao Eixo Prioritário n° 9, durante visita técnica à ETA de Galiléia realizada em 04 de maio de 2023. Durante a visita, a perícia observou danos estruturais no reservatório de água desativado que havia no local. Em 02 de junho de 2023, a perita judicial comunicou o SAAE, autarquia municipal responsável pela ETA, sobre o risco de desabamento no reservatório elevado de água.
Na representação, também foi requerido o acompanhamento e fiscalização por parte das autoridades competentes, com o objetivo de assegurar a integridade física dos moradores e a adoção de soluções definitivas.
Inquérito apura trincas e rachaduras em imóveis no entorno da ETA
Também em julho de 2024, a Assessoria Técnica Independente do Centro Agroecológico Tamanduá (CAT/ATI) levou ao conhecimento do Ministério Público de Minas Gerais relatos de moradores sobre o surgimento de trincas, rachaduras e abalos estruturais em residências localizadas no entorno da Estação de Tratamento de Água (ETA) de Galiléia. As obras da nova ETA foram executadas entre 2017 e 2020, no âmbito das medidas de reparação decorrentes do rompimento da barragem de Fundão, ocorrido em 2015, em Mariana (MG), quando o município foi incluído no Programa 32, previsto no Termo de Transação e Ajustamento de Conduta (TTAC), que tratava da melhoria dos sistemas de abastecimento de água.
Segundo os moradores ouvidos no âmbito do inquérito, as primeiras fissuras teriam surgido meses após o início das intervenções, período marcado por escavações e compactação do solo. Os depoimentos convergem no sentido de que os imóveis não apresentavam problemas estruturais antes do início das obras.
Além dos danos físicos às edificações, os moradores relataram impactos na qualidade de vida após a implantação da ETA, como aumento do tráfego de caminhões, excesso de poeira, ruídos constantes das bombas d’água, iluminação intensa direcionada para as casas durante a noite e perda de privacidade em razão da proximidade da estação com as residências.

Laudos técnicos produzidos por empresa contratada pela responsável pela obra reconheceram a existência de questões estruturais nas edificações, mas afastaram o nexo causal com a implantação da ETA, atribuindo os danos a vícios construtivos. Diante da controvérsia técnica, o Ministério Público manteve o inquérito em curso, com aprofundamento da instrução probatória e coleta de novos elementos. O foco central do procedimento é esclarecer se há relação direta entre as intervenções realizadas para implantação da estação e os danos estruturais alegados pelas famílias.
Com a demolição realizada por meio de explosão e sem comunicação prévia adequada, o caso ganha novo desdobramento e tende a ampliar o debate sobre segurança, transparência e responsabilidade no âmbito das ações vinculadas ao processo de reparação no município. O Inquérito Civil permanece em andamento.
Texto por Andressa Cruz | CAT/ATI
Imagens por Wan Campos | CAT/ATI







